Finalmente as nossas empregadas domésticas foram lembradas pelos homens que fazem as leis no país. Assim, quando no dia 27 de abril próximo vindouro comemorar-se o Dia Nacional da Empregada Doméstica, a classe se sentirá prestigiada duplamente: primeiro pela data festiva e segundo pelos direitos adquiridos recentemente, após a PEC das Domésticas.
Sempre me preocupou a situação de nossas “secretárias” do lar. A própria palavra – secretária – já denota um eufemismo arranjado para suavizar a categoria de semiescravidão da maioria delas. Se a condição – empregada doméstica – não fosse discriminada socialmente, não haveria necessidade de chamá-las de secretárias. Madame tem secretária? Algumas delas têm. Pelo menos as novelas da Rede Globo tentam elevá-las a esta categoria, pois nunca se viu tantas empregadas apresentadas ao público como amigas fiéis, escudeiras, alcoviteiras, mesmo, das patroas elegantes que nem café sabem fazer em casa delas... As infalíveis personagens novelísticas (nas novelas as protagonistas podem não ter mãe, pai, avó, irmã etc. mas empregadas não faltam para compor a cena) atuam como verdadeiras sombras das patroas, prestes a servi-las em tudo, além de serem, ainda, suas conselheiras! Bem, neste ponto a novela até contribui para mostrar que, apesar de sua pouca cultura, as domésticas são capazes de demonstrar sabedoria. Elas advêm da classe menos favorecida, mas guardam consigo a experiência de vida que as diplomou em psicologia aplicada...
Lembro-me de uma delas que tive, uma paraibana. Quando lhe perguntei por que as nordestinas tinham tantos filhos, sem condições de criá-los (a maioria desce para São Paulo ou Rio de Janeiro, vem ser doméstica nesses dois Estados, e deixa sem remorsos as crianças para trás, com o pai, com a avó, seja com quem for), ela me respondeu do alto de sua sabedoria adquirida no sofrimento do dia-a-dia: “Ó xente, D. Maria Eli, a única alegria que nóis pobre temo é de fazê filho, num é não?” Fiquei sem saber o que dizer diante desta resposta tão espontânea, tão confessadamente verdadeira. Ri com ela e calei o meu sermão preparado...

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