A RENDIÇÃO DA MULHER

Da personagem Lívia Marini, interpretada por Cláudia Raia na novela Salve Jorge, de Glória Perez, a característica menos absurda foi a sua rendição à atração sexual que o suposto inimigo lhe causou. Lívia Marini encarna a maioria feminina. Por mais que a mulher seja inteligente, experiente, boa ou má, estereótipo da vilania ou da virtude, ela cairá um dia na cilada do macho ideal para ela.
            É assim mesmo que age a fêmea que se deixa abater pelo macho. É assim mesmo que age a mulher que se deixa seduzir pelo cafajeste sedutor. Ele comanda a ação. Não há como escapar de sua armadilha inteligente e bem planejada. Não há.
            Desde os tempos mais antigos têm-se notícias de personagens femininas que se renderam ao bom sedutor, todos eles seguidores de Don Juan. Mas ainda há aquelas que se deixam seduzir porque também elas estão predispostas a encontrar aquele que as domine... na cama. Aqui se encaixa Lívia Marini. A mulher inescrupulosa, assassina, mau caráter, ansiava por um dominador másculo, que a subjugasse de vez. E encontrou este atributo em Théo (Rodrigo Lombardi), o vigoroso capitão que a arrastou para a cama e fê-la esquecer de tudo o que não deveria ter esquecido... Lívia e Théo: a presa e o caçador. Ou seria Théo e Lívia: o aproveitador e a presa? O moço tem seus motivos para seduzi-la (está à cata de um segredo da moça) enquanto que ela tem seus motivos para se deixar seduzir: nunca se sentira apaixonada por nenhum homem até então.
            Creio que, ao enredar Lívia e Théo nos ardores da luxúria sexual, a novelista se redimiu, em grande parte, das culpas todas que causaram o fracasso da novela, se comparada ao êxito de Avenida Brasil. Na realidade, temos que admitir que o jogo entre os dois foi muito bem conduzido por Glória Perez.  As cenas da transa em sua plenitude, sensação tão ansiada pela vilã, foram levadas ao ar de uma forma bastante apropriada ao horário. É difícil para uma criança reconhecer, na careta de Lívia ao cavalgar sobre Théo, o esgar do orgasmo feminino. Parecia mais uma risada de felicidade. Mas nós sabemos do que se tratava, uma vez que, dominada, a moça sentiu pela primeira vez a sensação de ser mulher, fêmea no ápice do prazer, fêmea no apogeu da maturidade sexual tão ansiada pela maioria. Parabéns, Glória Perez, você se redimiu das falhas, desta vez!

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