Por que, em geral, o aluno não gosta de ler?

O artigo a seguir foi publicado no Jornal das Letras, n. 131, da Academia Brasileira de Letras - ABL - em Julho de 2009.
Preocupada com a falta do hábito da leitura, mesmo naqueles que cursam Letras, escrevi esse artigo, que foi gentilmente publicado pela ABL.


Por que, em geral, o aluno não gosta de ler?

Nosso ponto de partida será a hipótese de que o aluno tem aversão à leitura porque não gosta de livros. E por que ele não gosta de livros? Seria porque o jovem tem preguiça de exercitar o raciocínio que a leitura acarreta? Seria pelo fato de que a leitura exige uma postura estática e a juventude tem aversão ao quietismo, à concentração? Seria por causa do alto preço do livro? Cremos serem por demais simplistas essas tentativas de resposta, uma vez que a problemática se estende a uma maior complexidade. Teçamos, por isso, algumas considerações a respeito do assunto.
Sabe-se da precariedade do sistema de análise de um livro em sala de aula. Processo mecanicista, simplificado ao máximo. Ora, em nenhum momento é passada para o leitor em potencial a noção de que aquele livro que ele tem nas mãos é uma obra de arte verbal, tão preciosa quanto a não-verbal. E quiçá a mais difícil! Segundo Octávio Paz, a linguagem não-literária reproduz. A linguagem literária produz. Essa é a chave da dificuldade da arte textual. O texto literário é ao mesmo tempo um objeto lingüístico e um objeto estético. Não há como separar essas duas formas de consagração da arte. Ou ele é texto literário – tessitura de significados que provocam significantes – ou ele não é nada. Apenas tagarelice. Ou então apenas mais uma experiência lingüística. E se não é texto literário, muito menos será uma obra de arte. Aqui chegamos ao cuidado que a escola - leia-se o professor - deve ter com a escolha do livro a ser apresentado aos alunos. Tagarelice? Ou obra de arte? Pelo amor de Deus, que seja obra de arte! Primeiramente, é necessário que o professor, nesse momento, saiba reconhecer quando este ou aquele livro pode ser considerado obra de arte literária e saiba exibi-la com sabedoria, com seriedade, com eficácia, com poder de convencimento.

O que sugerimos?

Primeiro passo: é importante mostrar à criança ou ao adolescente como o texto está estruturado, e não, simplesmente, o que o autor quis dizer; trata-se de observar estrutura e estruturação. Não se podem desprezar os métodos extrínsecos de abordagem da literatura, tais como os históricos, os sociológicos, os biográficos etc., válidos na medida em que proporcionam esclarecimento sobre a época, o meio, a sociedade na qual o autor está (ou estava) inserido; mas, ao analisar uma obra literária com os alunos, deve-se preferir, na verdade, os métodos intrínsecos: estilo, textura, estrutura narrativa, a temática, e, principalmente, a linguagem. O enredo pode ser banal, mas, uma vez tratado com a arte da palavra, com certeza cairá na rede das obras consideradas de valor literário inestimável. Haja vista a história do adultério - pelo menos se sabe que há possibilidade de ter sido adultério – em Dom Casmurro. Ora, escrever sobre a história de um triângulo amoroso não é difícil; mas escrever da forma como Machado de Assis escreveu, deixando entrever, ou não, a culpa, abordando ora questões transcendentais, ora questões reflexivas e que requerem erudição, ah, isso é difícil! A desbanalização do tema não se consegue com a insipiência artística! Logo, a feitura do contexto deve ser explorada em sua pujança e magnitude, e trazida à tona pelos melhores marchands em sala de aula!

Segundo passo: é de suma importância afastar da consciência do aluno a noção de que este ou aquele autor é de difícil compreensão. Fazê-lo enxergar que não há textos difíceis, mas sim textos que requerem releituras, posto romperem com o meramente lógico, uma vez que foram burilados visando maior perfeição artística. Nossa missão de professores, nesse exato momento, é fazer o aluno compreender que está diante da escritura de um autor genial, é levar o aluno a admirá-lo e desejar imitá-lo, segui-lo, ou, pelo menos, chegar perto de seu gênio criador. É namorar, mesmo, o criador e a sua criatura.

Terceiro passo: despertadas as mentes para a literariedade do texto em questão, devemos levar o aluno a encarar a história lida como lição de vida; levar o aluno a depreender do texto o caráter enriquecedor que nos traz a leitura. O texto apresenta uma função educativa, nesse momento: ele denuncia, ele avisa, ele desnuda alguns segredos, preparando, formando, burilando a mente. Nesse momento o professor deve trabalhar a plurissignificação do texto. As entrelinhas. Trabalhar com a diferença entre o texto transparente, denotativo, do nosso dia-a-dia, e o texto opaco, conotativo, este mais rico e artisticamente elaborado, o que o torna uma obra de arte, sem dúvida alguma.

Chegados a esse ponto, com certeza teremos levado o nosso público a gostar de ler, porque para eles as palavras não serão mais concebidas ilusoriamente como simples instrumentos. Não, a partir desse momento de revelação e descoberta, nossos alunos compreenderão e concordarão com Roland Barthes: “As palavras são lançadas como projeções, explosões, vibrações, maquinarias, sabores: a escrita faz do saber uma festa”.

Oxalá os professores promovam essa festa em sala de aula!

10 comentários:

  1. ...e pensar que fui sua aluna! Quanta honra! Querida mestra, parabéns pelo seu blog e muito, muito sucesso. Você me faz pensar naqueles versos de Fernando Pessoa: "Para ser grande, sê inteiro. Nada teu exagera ou exclui. Põe tudo de si no mínimo que fazes. Assim, em cada lago a lua toda brilha porque alta vive". Um grande beijo da amiga Carmem.

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  2. Foi muito bom ser sua aluna, sua vizinha e saber que posso contar com você. Você é muito especial. Parabéns pelo blog. Está harmônico apresentando todos os trabalhos que será muito útil para alunos, professores e não menos para ex alunos. Um grande beijo e PARABÉNS.
    Sineida

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  3. Querida Carmem!

    Desculpe a demora! Você é encantadoramente gentil! Nunca me esqueço de sua carinha animada ouvindo as minhas aulas!
    Beijos...Saudade.

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  4. Professora, suas dicas são de extrema importância para qualquer pessoa, não somente professores, que tenha interesse em despertar o gosto pela leitura, nesta juventude que se vê às voltas com
    tantos atrativos, esquecendo-se de cuidar do intelecto.

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  5. Pois é. Vimos em sala de aula o quanto devemos enaltecer a literariedade presente nas obras de arte literárias, não é mesmo? Fico feliz por saber que você concorda com o meu ponto de vista!

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  6. Adorei o artigo.Parabéns!

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  7. Que bom que você chegou até aqui, meu caro aluno!

    Obrigada pelo elogio ao artigo.

    Bjs.

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  8. Olá, cara professora. Gostei muito do texto. Além das ideias interessantes que a sua escrita nos traz, é um grande incentivo para nós, professores em formação, pensar o quanto é possível "promover essa festa"...
    Beijos,
    Maria Carolina

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  9. Carol, não vi você antes, por aqui! Perdoe a minha falha!
    Você é muito boa no que escreve, menina! Que seja sempre cercada de festas, em sua carreira, viu?
    Beijos.

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