Amigos!
Há um site na web – Observatório da Imprensa – bastante peculiar. Criado por iniciativa de Alberto Dines, o grande jornalista, e de o Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e projeto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é um veículo jornalístico focado na crítica da mídia, com presença regular na Internet desde abril de 1996, ou seja, há 15 anos. O site é tão bom que ganhou uma versão televisiva, produzida pela TVE do Rio de Janeiro e TV Cultura de São Paulo, sendo transmitida semanalmente pela Rede Pública de Televisão.
Pois bem. Um dos colaboradores do Observatório é o excelente homem de Letras, Deonísio da Silva, pró-reitor de Cultura e Extensão e coordenador de aulas teletransmitidas e on-line de Língua Portuguesa na Universidade Estácio de Sá do Rio de Janeiro. Deonísio é doutor em Letras (USP), professor e escritor. Já publicou vários romances e, dentre eles, destacam-se: Avante, soldados: para trás (1992) - prêmio internacional Casa de las Américas, em júri presidido por José Saramago [prêmio Nobel de Literatura 1998, recentemente falecido] e publicado também em Cuba, em Portugal e na Itália; Teresa (1997), premiado pela Biblioteca Nacional.
Deonísio da Silva escreve uma coluna semanal de etimologia na revista Caras, periodicamente reunidas no livro De onde vêm as palavras (1997), constantemente reeditado, cuja 16ª edição (2009) está com 1069 páginas.
Pois bem, leitor amigo. Tive o privilégio de assistir a uma palestra desse excelente homem de Letras. Lá, trocamos ideias e eu o presenteei com dois dos meus livros. Após alguns dias recebo do novo amigo um artigo ainda inédito, o qual ele escrevera para o site, e que seria publicado no Observatório da Imprensa em 21 de setembro, o que já aconteceu, pois. Tomo a liberdade de transcrevê-lo para que os amigos participem de mais uma alegria na minha incipiente carreira de escritora.
MACHADO DE ASSIS: INÉDITO E CATÓLICO
Deonísio da Silva
“Muito cuidado com os arquivos! Alguns países, com o fim de proteger os judeus que ali viviam, esconderam os arquivos, públicos e privados, dificultando e às vezes impedindo que eles fossem identificados pelos nazistas, como foi o caso do que ocorreu com a Dinamarca na Segunda Guerra Mundial.
Repousam nos arquivos verdades que precisam vir à tona e textos que precisamos interrogar. Pesquisadores sempre encontram o que nos dizer.
Há um livro imperdível na praça e não é de nenhuma grande editora. É Machado de Assis e a religião - considerações acerca da alma machadiana, publicado pela editora Idéias & Letras, de Aparecida-SP. A autora é Maria Eli de Queiroz, mineira de Araxá, professora da Universidade Estácio de Sá no campus de Petrópolis-RJ, cidade onde vive há muitos anos! Um de seus livros anteriores foi premiado pela União Brasileira Escritores-UBE, como um dos melhores romances de autoria feminina.
Ela começa com os ataques de um bispo à obra machadiana, citando desjeitosa metáfora da autoridade religiosa. Coração de pedra pode ser boa comparação, mas pode o coração gotejar? Machado de Assis tinha um “coração de pedra que jamais gotejou lágrimas”, escreveu Dom Hugo Bressane de Araújo, no centenário de nascimento do escritor, em 1939, ao publicar o livro O aspecto religioso da obra de Machado de Assis.
Em crônica publicada em 14 de abril de 1895, em A Semana, dizia Machado: “Há meia dúzia de assuntos que não envelhecem nunca; mas há um só em que se pode ser banal, sem parecê-lo, é a tragédia do Gólgota. Tão divina é ela que a simples repetição é novidade. (...) Grande é a morte de Jesus, divina é a sua paciência, infinito é o seu perdão (...). ”
Na mesma crônica, depois de citar Rousseau - “o Evangelho fala ao meu coração” – Machado recomenda: “É bom que cada homem sinta este pedaço de Rousseau em si mesmo...Entretanto, eu admiro o belo sermão da Montanha, as parábolas de Jesus, os duros lances da semana divina, desde a entrada em Jerusalém até à morte no calvário”.
Ele estava escrevendo sobre a Semana Santa, mas confessava-se obrigado a dividir o tema da crônica com outro assunto: “A Semana Santa chama-se para as coisas sagradas, mas uma ideia que me veio do Amazonas chama-me para as profanas, e eu fico sem saber para onde me volte primeiro. Estou entre Jerusalém e Manaus”.
Muito se tem escrito sobre Machado de Assis nos últimos anos e devemos a outro professor, Mauro Rosso, da PUC do Rio de Janeiro, a descoberta de contos machadianos inéditos, que ele os descobriu em arquivos particulares e em jornais de Petrópolis, depois de lançada a bela coleção da Nova Aguilar. Recomendo o livro de Maria Eli de Queiroz e também Contos de Machado de Assis: relicários e raisonnés (Editora da PUC e Edições Loyola).
Se Mauro Rosso fez um trabalho de Sherlock Holmes, descobrindo inéditos de Machado de Assis, Maria Eli de Queiroz saiu à procura do catolicismo do grande escritor e dele encontrou provas abundantes, mudando radicalmente o que se dizia de Machado até então. A maioria dos críticos e biógrafos viu nele o ceticismo de corte inglês. E a afilhada do escritor, Francisca de Bastos Cordeiro, relata que ele recusou os sacramentos de confissão e da extrema-unção (hoje com o nome de unção dos enfermos). Daí a controvérsia sobre seu ateísmo.
Mas, momentos antes de morrer, segundo testemunharam Euclides da Cunha, José Veríssimo e Raimundo Corrêa, entre outros, Machado disse: “Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará”.
Foi em frestas como esta que Maria Eli de Queiroz encontrou com sagacidade, não apenas indícios, mas provas de que Machado de Assis não era ateu. Isso não o diminui nem o engrandece, mas engrandecem a autora, que contribui para que o perfil de Machado tenha novos contornos, como, aliás, acontece também depois que lemos Mauro Rosso.”
Nota: Machado de Assis e a religião já está na segunda edição.
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Poxa, Parabéns mesmo!
ResponderExcluirSer elogiada por Dionísio da Silva é um imenso privilégio!
Continue assim, esbanjando talento!!
Beijos!!
Obrigada!
ResponderExcluirDeonísio é mesmo um dos grandes talentos com quem temos o privilégio de contatar por meio da Estácio, essa grande Universidade, que tem em seu corpo docente os melhores professores, modéstia à parte.
Nada disso tem força para concluir que ele era católico. Quando fala do evangelho, acho que o que lhe toca é o aspecto literário, sem se importar se fosse uma ficção. E o desejo de encontrar entes queridos depois da morte, não necessariamente é católico, faz parte de diversas outras filosofias e muitas vezes é um símbolo da eternidade do amor humano, sem que tenha que estar inserido em alguma mitologia.
ResponderExcluirCaro Cosme Aristides,
ResponderExcluirDesculpe a demora da resposta, mas somente hoje vi o seu comentário. É preciso que você leia o meu livro e depois opine mias detalhadamente, pois flaches do livro não são bastantes para provar o que tento provar em minha análise. Depois que você o ler, o que gostaria muitíssimo, amigo, volte a me escrever viu? Aguardo a sua preciosa colaboração.
Abç.
Maria Eli