Lá estão elas. Parecem formiguinhas carregando as folhas na cabeça. Chegam cedo, colocam o material no chão, armam uma cadeirinha portátil, algumas ligam um radinho de pilha, e ali ficam, das oito da manhã às seis da tarde. O sol escaldante lhes torra a pele. Mas elas devem permanecer ali, sem arredar um pé. O espetáculo é deprimente e deveras desumano. Há muito eu as vejo nas ruas da nossa cidade, mormente postadas nas esquinas. As fisionomias não são alegres. São tristes. Usam bermudas e blusas curtas, para aguentar o calor que as consome. Parecem sofridas. No que estará pensando aquela? No filho que ela deixou em casa, sozinho? No bebê que deixou na creche? No almoço que não pôde fazer? Nas horas que não passam? E o sol a lhe queimar o corpo. Nessa última semana, quando o número das infelizes mulheres aumentou, eu me aproximei de uma delas. “Tem 54 anos (mas aparenta 64). Chega cedo e sai tarde, chova ou faça sol. Não lhe fornecem uma barraca para se abrigar das intempéries. A comida ela traz de casa, na marmitinha. Come-a fria, mesmo.” Disse ganhar R$210,00 por semana. Fiz as contas: R$840,00 por mês. Olho para o cartaz que ela empunha: um sujeito forte, corado, bem vestido, ali se estampa, com um sorriso de saúde e olhar de quem se deu bem na vida. E ela? O que fará com esses míseros reais? Ele, se ganhar as eleições, embolsará muitíssimo mais do que ela, que com o suor do seu rosto, literalmente, o ajudou a ganhar! A candidata que ele tem ao seu lado certamente também será beneficiada, mas... e ela, a pobre cabo de rua? Voltará para casa, verá o estrago que a sua ausência causou à família naqueles dias, e ainda terá que comprar remédios na farmácia contra algum mal que a exposição prolongada ao sol ou ao frio possa ter-lhe causado. Saí dali arrasada. Hoje, após as eleições, eu pergunto ao leitor: o que nos restou observar nas campanhas políticas? O espetáculo midiático? Já não os há como antigamente, pois debates interessantes, sérios, nós não vimos. Candidatos na TV, apresentando a sua ficha limpa, o grau de escolaridade, o que já realizou de concreto em cargos anteriores, nem pensar! Então, pensemos no fato que nos chamou a atenção, nas ruas de Petrópolis, que representa uma ínfima parte da indústria do marketing político, cada vez mais indecente e decepcionante. Deixo ao leitor a reflexão. Se o candidato não respeita o pobre ser humano que o ajudou na campanha, como respeitará outras tantas pessoas? Será que ele pensará em nós, concidadãos ingênuos, que os elegemos? Claro que não! Trata-se de uma redefinição de análise e de postura, minha gente!
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